Dependência Química

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O consumo de substâncias psicoativas, sempre, esteve presente, ao longo da história da humanidade. Em todos os lugares e tempos, o homem buscou formas de alterar o seu estado de consciência. O consumo esteve, em geral, vinculado a práticas culturais e religiosas vigentes nas sociedades.

Entretanto, a banalização do uso dessas substâncias tornou-se um fenômeno mundial e tem gerado um impacto social importante.

As substâncias com ação sobre o sistema nervoso central, capazes de causar dependência, agem sobre uma área a nível cerebral, conhecido como sistema de recompensa ou sistema de gratificação. As substâncias, independentes de sua ação depressora, estimulante ou perturbadora do sistema nervoso central, agem sobre esse sistema aumentando a atividade de dopamina. O aumento da atividade deste neurotransmissor na fenda sináptica é responsável pelos efeitos prazerosos provocados pelas substâncias. O desejo intenso de consumir a substância e a recordação dos efeitos agradáveis da droga, em meio à sua falta, acarretam uma ânsia extrema para o consumo, denominada fissura ou craving. A presença de fatores que produzam a fissura para o uso da substância é fundamental no processo de desejo intenso de consumo.

A reinstalação da síndrome de dependência torna-se uma doença crônica, que acomete regiões profundas do cérebro e constitui um problema grave de saúde pública, acarretando uma série de prejuízos socioeconômicos, ocupacionais, psicológicos e físicos aos seus usuários.

Ao lado Tela pintada por paciente,que expressa os delírios de perseguiçãoe alucinações auditivas que se seguem após o consumo de drogas.

 

Tratamento Ambulatorial

Tipo de tratamento em que o paciente mantém suas atividades sociais, sem interrompê-las, e submete-se a consultas em ambulatório médico especializado para acompanhamento terapêutico.

 

Internação em Centro Terapêutico

Tipo de tratamento com indicação específica, em geral, após falhas no êxito da terapêutica ambulatorial. O tratamento ocorre em ambiente protegido, objetivando à reinserção social.

Plano de Prevenção de Recaída

Sabe-se que a dependência química é uma doença crônica e redicivante que acomete regiões profundas do cérebro. Por ser patologia crônica, ou seja que acompanha o paciente durante toda a sua vida, a responsabilidade com o tratamento de forma continuada é fundamental para o êxito em relação à manutenção da abstinência. Neste propósito, o plano de prevenção de recaída possibilita ao usuário o suporte necessário para o desenvolvimento de habilidades para identificar situações de vulnerabilidade, evitar situações de alto risco e utilizar estratégias de enfrentamento compatíveis com o desejo de manter-se abstinente.

O processo de recaída

O indivíduo em abstinência experimenta uma sensação de autoeficácia, ou seja, sente-se no controle da situação, livre de pressões para consumir uma substância psicoativa. Essa sensação de controle sofre abalos na presença de situações relacionadas ao consumo, denominadas de alto risco, entre elas: as pressões sociais, estados emocionais negativos e conflitos interpessoais.  Frente a uma situação de alto risco sairá fortalecido aquele paciente que conseguir desenvolver uma resposta de enfrentamento para o problema. No entanto, a ausência de resposta diminuirá a sensação de autoeficácia e este controle se tornará ainda mais comprometido quando o indivíduo passar a manifestar expectativas positivas em relação ao consumo da droga. A presença de pensamentos disfuncionais, do tipo “Se eu voltasse a usar agora que estou abstinente, acho que o efeito seria diferente e conseguiria usá-la controladamente” podem fazer com que o indivíduo retome ao consumo e coloque todo o trabalho realizado a perder. Para que isto não ocorra, o acompanhamento especializado torna-se fundamental para evitar que um lapso de consumo, transforme-se em recaída. Entende-se por lapso, o uso da substância de forma pontual, ou seja de forma isolada. Por outro lado, entende-se por recaída a retomada de um padrão rotineiro de consumo, não necessariamente ao padrão anterior de uso. Um ponto importante neste processo e que deve ser entendido é que o lapso em boa parte dos casos transforma-se em recaída, e é neste momento que o trabalho à nível ambulatorial torna-se quase que inviável. Neste sentido, o plano de prevenção de recaída apresenta duas metas importantes: evitar que o lapso de consumo ocorra e que um lapso se transforme em uma recaída.

O plano de prevenção de recaída

O dependente de substância psicoativa possui como características a busca de alívio para o desconforto de ordem psíquica, recompensa imediata e sensação de controle. A ambivalência de sentimentos e pensamentos voltados ao consumo, efeitos prazerosos versus efeitos negativos, acompanham o paciente pelo resto de sua vida. Além disto, vale ressaltar que após algum tempo de aquisição da abstinência alguns pacientes passam a apresentar uma postura de que “a guerra foi vencida” e que já não há mais necessidade de cuidados que antes necessitou. O dependente de substância psicoativa não deve permitir que este tipo de pensamento ocorra, pois após anos de abstinência um novo consumo pode ocorrer, e o risco de recaída será mais elevado, em virtude da ausência de consumo gerar adaptações cerebrais que propiciam um prazer mais intenso após novo consumo, havendo com isso uma reinstalação da doença de forma mais rápida.

Dentro deste contexto, o plano de prevenção de recaída é considerado uma estratégia de manutenção no processo de abstinência, desenvolvido em uma segunda fase do tratamento. Este plano possui como objetivo identificar minuciosamente o que favoreceu ao processo de recaída e quais os comportamentos que propiciaram este direcionamento ao uso da substância. Transformar o momento do “fracasso” em oportunidade de aprendizagem sobre o que não funcionou, transformando a “derrota em vitória”.  O tratamento não objetiva apenas as causas, como também o funcionamento presente e o planejamento para mudanças futuras. Busca avaliar áreas e propor mudanças, como a busca por um estilo de vida equilibrado, a partir da pratica esportiva, meditação , oração, a identificação de novas ou antigas fontes de prazer. Visa, ainda educar sobre os sinais de alerta de recaída, a partir dos desequilíbrios no estilo de vida, expectativas, análise das fantasias de recaída e a permanente investigação de estímulos, ou seja, gatilhos para um novo consumo.

Um outro ponto inteiramente relevante, na manutenção do processo, é o monitoramento sobre a possibilidade do uso de drogas pelo dependente. Mesmo quando os familiares do paciente são bem orientados sobre a cronicidade do transtorno, e entendem que o processo de recuperação é, na maioria das vezes, uma longa caminhada e que por vezes haverá necessidade de vários episódios de tratamento. As várias promessas de abstinências futuras e as desculpas sucessivas, acabam minando a credibilidade do paciente perante seus familiares, gerando uma convivência conflituosa e estressante. O voto de confiança pelos familiares torna-se mais difícil e a liberdade do paciente mais restrita. Esta relação entre dependente e familiares, gera estresse, empecilhos ao tratamento e poderá contribuir até mesmo para um novo consumo.  Diante disto, o monitoramento sobre o consumo de substâncias pelo paciente, torna-se uma ferramenta fundamental para melhorar a qualidade de vida de dependentes e familiares.

Quatro pontos positivos para o monitoramento do consumo de drogas: 1.    Reduz desconfianças, conflitos e situações estressantes. 2.    Confirma a boa evolução do tratamento. 3.    Motiva o paciente (as sucessivas amostras negativas podem motivar ainda mais as condutas pelo paciente). 4.    Justificativa concreta para não usar a droga (último recurso quando outras técnicas de enfrentamento não funcionarem).

Observação: O uso de medicamentos aversivos podem também ser utilizados nesta etapa do tratamento, com o mesmo objetivo, visando a restauração e aprimoramento da capacidade de autonomia do paciente.

Projeto Novo Rumo

novo_rumoSabe-se que a atividade física aeróbica aumenta o bem estar e reduz o estresse. A resposta para estes achados encontra-se na liberação de substâncias, opióides endógenos, durante e após a execução da atividade física. Neste sentido, o presente projeto intitulado Novo Rumo busca ofertar aos pacientes dependentes de substâncias psicoativas, internados em cetros terapêuticos, uma perspectiva de mudança de seu estilo de vida, apresentando o prazer virtuoso que o esporte aeróbico produz, bem como a disciplina e a filosofia que uma arte marcial pode oferecer. E por que o Jiu-Jitsu, ou seja, a arte suave? porque o terreno deste esporte pode ser considerado como simbolicamente o terreno da própria vida. Este novo aprendizado expõe o praticante a um novo desafio, a levar-se mais a sério, a aceitar a frustação, a transformar uma desvantagem em vantagem, a autossuperar-se, a avançar ao compreender um erro, a uma vida regrada e saudável. Além de:

– Melhorar a cognição (concentração, destreza, resolução de tarefas, memória) através do aprendizado de técnicas e a execução de movimentos com finalidade definida.
Melhorar a autoestima (a partir do aprendizado de técnicas e da observação de que o individuo torna-se capaz de executá-las).
Reduzir o estresse e ansiedade do confinamento (Atividade distinta das já realizadas no espaço terapêutico, encarada como novo lazer)
Melhorar o padrão cardioventilatório, perfil metabólico, e Índice de Massa Corporal.

Ao termino do tratamento possibilitará ao paciente:

– Um local para fazer novos amigos (escolas de jiu-jitsu com professores responsáveis reúnem jovens e adultos com hábitos saudáveis).
– Parceria firmada com academias Kimura Nova União em todo o estado do RN (pacientes terão 50% de desconto) se desejarem aprender mais sobre a arte.
– Por ser um esporte de alto rendimento a manutenção de uma dieta, sono adequado e de uma vida saudável torna-se imperiosa para a pratica deste esporte. Fato que contribuirá de forma importante para a manutenção da abstinência.

Aplicação do Projeto

Desenvolvimento da aula: Fundamentação teórica da pratica esportiva, disciplina e fundamentos técnicos iniciais do esporte. (o objetivo é de apenas apresentar o esporte, sem aprofundá-lo tecnicamente). Alongamento antes e após o treino e atividade aeróbica neste intervalo. Duração da aula: 2 horas (um domingo por mês) Material: o material será oferecido gratuitamente (camisa para treino) sem custos aos pacientes. Local da atividade: próprio centro terapêutico, a partir da montagem de tatame de encaixe montado e desmontado após o treino.

 

*Projeto implantado no ano de 2014, em centros terapêuticos do Estado do Rio Grande do Norte, objetivando apresentar aos pacientes dependentes de substâncias psicoativas, o prazer que o esporte aeróbico oferece.